Sumé o Semideus que Ensinou a Civilização aos Tupis
A figura de Sumé (também grafado Sumiê, Zumé, Tumé, Pay Sumé) ocupa um lugar singular na mitologia Tupi. Para muitos povos indígenas do Brasil, Sumé foi um herói civilizador, um ser de aparência incomum que chegou do mar, conviveu com os nativos e lhes transmitiu conhecimentos fundamentais — até o momento em que, ao perceber o desinteresse ou a desobediência de parte das pessoas, decidiu abandonar a terra e partir, prometendo retornar.
No quadro acima, vemos representações alegóricas do antigo povo Tupi oferecendo cauim ao deus Sumé. Eles também deixavam seus maracás enterrados no chão, perto da comida e das bebidas da oferenda, porque acreditavam que Sumé estabelecia uma ponte entre o mundo físico e o mundo espiritual.
O mito possui características profundas e multifacetadas: é ao mesmo tempo relato cosmogônico, memória cultural, narrativa moral e, em certos momentos, fruto da reinterpretação cristã durante o período colonial. A seguir, apresento um panorama completo, sem omitir nenhum dos elementos mencionados anteriormente.
1. A essência do mito de Sumé e Semiótica
Entre os antigos Tupis, Sumé é lembrado como uma entidade ou semideus do conhecimento, um mestre que transmitiu saberes essenciais para a vida em sociedade. Ele teria ensinado:
A agricultura, especialmente o cultivo e o processamento da mandioca;
A produção de farinha de mandioca, o cauim e técnicas de preparo dos alimentos;
Artes práticas, como a fabricação de anzóis a partir de espinhos;
As normas sociais e éticas, em algumas versões proibindo práticas como o canibalismo e a poligamia;
Princípios de convivência e organização, visto por muitos como um legislador primitivo.
Essa figura se aproxima, na estrutura do mito, de outras entidades civilizadoras de diferentes culturas — como Osíris e Ísis no Egito, Quetzalcóatl entre os povos mesoamericanos, ou Prometeu na mitologia grega. Em todos esses casos, trata-se de seres que trazem ordem, técnica e sabedoria a um povo.
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| Sumé como o personágem de número 5 no Monumento às Banderias, com o lobo-guará (ou outra fera) nas costas - simbolizando a solidão e a missão. |
A semiótica de Sumiê apresenta-o como uma figura ancestral de extrema leveza, capaz de caminhar sobre as águas sem afundar. Essa leveza é representada pelas asas de borboleta, inspiradas nas grandes espécies amazônicas, que simbolizam metamorfose espiritual, transição entre mundos e a capacidade de elevar a matéria ao nível do sutil. As asas, mesmo quando recolhidas, sugerem que Sumiê pertence a uma ordem de seres cuja fisicalidade não está limitada às leis comuns.
Nas costas de Sumiê repousa o lobo-guará, como presa alimentar. O guará representa simultaneamente a solidão e a liderança. Diferentemente do lobo europeu, que conduz matilhas complexas, o lobo-guará vive e caça sozinho, guardando um território que domina pela presença silenciosa. Essa independência o aproxima de Sumiê, que chega sozinho às Américas para anunciar uma nova forma de civilização. Ao mesmo tempo, ao carregar o animal como se carrega uma caça ritual, Sumiê incorpora a força arquetípica do lobo europeu, associado à liderança, ao pioneirismo e à figura do guia. Assim, o guará sintetiza a dupla natureza do herói: solitário na busca, mas portador de uma autoridade espiritual inata.
A postura de Sumiê remete às figuras do monumento às Bandeiras, especialmente ao núcleo que representa o caçador avançando com a caça sobre os ombros. Essa referência estética reforça a imagem de movimento, impulso e missão. Em Sumiê, porém, a caça deixa de ser um símbolo de sobrevivência e se converte em um emblema civilizatório, indicando que o herói domina o mundo natural sem destruí-lo, estabelecendo com ele uma relação de mediação e significado.
Caminhar sobre as águas aproxima Sumiê tanto de tradições cristãs sincretizadas quanto de concepções Tupis que admitem seres capazes de transitar entre camadas do mundo. As águas se deformam suavemente sob seus pés, mas não cedem, porque sua natureza é leve e sua missão é atravessar fronteiras físicas e espirituais. No conjunto, Sumiê reúne leveza, solidão, liderança e monumentalidade. É o viajante espiritual, o fundador que chega desacompanhado, o mensageiro que transforma territórios e pessoas pela simples presença. Sua iconografia cria uma ponte entre o imaginário Tupi, os mitos cristãos reinterpretados e a estética heroica brasileira, compondo uma figura que sintetiza metamorfose, autoridade e travessia.
2. Uma presença sobrenatural
A aparência física de Sumé também se destaca na tradição oral, ele é descrito como um homem branco, de longas barbas e porte distinto. Em certas versões, era capaz de caminhar sobre as águas, surgindo ou desaparecendo no mar. Há locais onde se afirmava existir pegadas de Sumé gravadas na rocha, testemunhos de sua passagem pela Terra.
Alguns desses locais sagrados ainda hoje existem na memória das comunidades, e são associados a marcas naturais ou inscrições rupestres interpretadas como “provas” da presença do mestre civilizador.
3. O vínculo com São Tomé
No período colonial, muitos missionários — entre eles Manuel da Nóbrega — viram no mito indígena uma oportunidade de conexão com o cristianismo. Assim, passaram a afirmar que Sumé seria, na verdade, o apóstolo São Tomé, que teria evangelizado as Américas antes da chegada dos portugueses.
Essa associação era sustentada por três argumentos principais:
1. Semelhança fonética entre “Sumé” e “Tomé”;
2. Relatos indígenas de um homem branco, barbado, vindo do mar — uma imagem semelhante à iconografia cristã;
3. A narrativa da partida de Sumé, que ecoava motivos cristãos de missão e retorno.
A partir dessa adaptação, muitos lugares da costa brasileira — como a Capela de São Tomé em Itapuã (Bahia) — passaram a ser associados tanto ao santo cristão quanto ao herói indígena. Nos arredores de Itapuã, por exemplo, há referências tradicionais às “pegadas de Sumé”, que teriam ficado gravadas na pedra.
4. Sumé e o Caminho de Peabiru
Outro ponto importante ligado ao mito é o Peabiru, uma antiga rede de caminhos indígenas que cruzava parte da América do Sul. Em algumas versões, Sumé teria aberto essa trilha sagrada enquanto se afastava do litoral, percorrido o continente pelos caminhos do Peabiru, levando sabedoria, partido rumo ao oeste, para além das serras, deixando a promessa de retorno.
Para alguns povos, o Peabiru não era apenas um caminho físico, mas um trajeto espiritual, relacionado à Montanha do Sol ou ao mundo dos ancestrais.
5. Interpretações contemporâneas
O mito de Sumé pode ser lido sob diferentes perspectivas:
a) Mito etiológico
Explica a origem de técnicas, cultivos e valores sociais, atribuindo ao herói a responsabilidade por inaugurar práticas essenciais à vida Tupi.
b) Sincretismo religioso
A fusão com São Tomé mostra como tradições indígenas e cristãs se mesclaram durante a colonização, criando uma figura híbrida que atendia às expectativas de ambos os lados.
c) Contato pré-colonial
Há quem veja na figura de Sumé um possível registro mitificado de encontros com navegadores antigos. Entretanto, isso permanece no terreno da especulação, não da evidência histórica.
d) Símbolo da memória cultural indígena
Sumé encarna a busca por sabedoria, pela ordem e pela preservação dos ensinamentos — e também a decepção humana, quando os povos deixam de seguir os caminhos da tradição.
6. A ambiguidade final: por que Sumé foi embora?
Um dos elementos mais marcantes da lenda é o momento em que Sumé parte:
Em várias versões, ele ensina, orienta, tenta corrigir.
Mas ao perceber que parte das pessoas não queria aprender, ou desrespeitava as regras, ele decide abandonar a terra. Sai caminhando pelo mar — ou pelo Peabiru — deixando para trás apenas suas marcas e a promessa de retornar quando os povos estivessem preparados.
Essa dimensão moralizante faz parte do caráter profundo do mito: Sumé é o grande professor que a humanidade deixou escapar.






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