O Tupinista voltou
É dessa permanência invisível que nasce a minha atitude tupinista: não como nostalgia, mas como retomada. Não como passado, mas como continuidade. A cultura tupi não morreu — ela está voltando. E desta vez, para se estabelecer.
Na foto estou ao lado do meu Arhat (clara referência a Murakami, que me inspira), o Arhat tupi. Ele segura um maracá, e dentro desse instrumento está uma das ideias mais profundas da nossa cultura: o corpo como recipiente de vida. A cabaça oca guarda sementes que fazem som — assim como nós guardamos em nosso interior aquilo que vibra, que nos dá identidade. O som do maracá não vem de fora. Ele nasce de dentro.
Sou 16º descendente de Tibiriçá, habito o Inhapuambuçu — hoje chamado bairro da Liberdade — e carrego essa linha invisível que atravessa o tempo.
Há um canto antigo que ecoa essa ideia de permanência:
Peẽ oré reitýkeme,
oré repykatuábo
Tupi amõ, oré irũ,
rúri é peē iukábo.
“Se vocês nos derrotarem,
Para nos vingar,
Outros tupis, nossos companheiros,
Virão para matar vocês.”
Esse verso carrega uma verdade profunda: um tupi nunca abandona outro tupi.
Hoje, eu e um grupo de outros tupinistas estamos trazendo essa cultura de volta. Não como repetição do passado, mas como continuidade consciente. Como retorno.
É nesse espírito que estou recriando o cauim.
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| Recriação do cauim contemporâneo, Cauim Tiakau |
O cauim não é apenas uma bebida. É tecnologia ancestral, química viva, cultura em fermentação. Recriá-lo hoje é reativar uma inteligência esquecida, é fazer o passado falar no presente com linguagem contemporânea.
Minha corrente artística, o Tupi Pop, nasce dessa missão: fazer com que o brasileiro reconheça, valorize e ame suas origens com a mesma força com que outros povos preservam as suas. Não se trata de olhar para fora, mas de reencontrar o que já está dentro.
Sou admirador da obra de Takashi Murakami, especialmente pela forma como ele fragmenta e multiplica a identidade. Seus trabalhos mostram que há sempre algo dentro de algo — uma camada dentro da outra, um eu dentro de outro eu.
O que essa imagem representa:
um corpo que guarda outro,
um som que guarda memória,
uma cultura que parecia perdida…
mas que está de volta.
E, como tupi, essa volta não é contemplativa.
É missão.
É retorno para a guerra — desta vez, para vencer e se estabelecer.





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